jBelo Horizonte, 17 de Novembro de 2005 - Ano 03 Boletim # 02

BOCA NO TROMBONE!

Troca de idéias sobre Juventude e Consciência Negra

Na semana da Consciência Negra, o boletim da Rede Jovem de Cidadania traz um bate-papo com dois jovens atuantes em movimentos socioculturais de Belo Horizonte: Elisângela Silva, de 27 anos, estudante de Psicologia na PUC Minas, integrante do grupo D-vEr.CidaDe CuLturaL e do Movimento Juventude Negra e Favelada, e Negro F, rapper de 26 anos, também ligado ao Movimento Juventude Negra e Favelada e um dos coordenadores do Grupo Cultural NUC, associação que está à frente de diversas iniciativas, como o programa Centro de Multiculturalismo Comunitário, através do qual são realizadas oficinas de capacitação técnica, formação artística e produção cultural na comunidade do Alto Vera Cruz, região leste de BH.

Agência RJC: Qual o significado da comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra no Brasil?

Elisângela: Na verdade, eu não considero uma comemoração. Acho que é mais um dia de reflexão e lutas. É o aniversário da morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares, que foi assassinado. Eu acho importante essa data para refletirmos e termos sempre uma referência para poder rediscutir as questões e as estratégias dos movimentos negros na luta contra o racismo.

Negro F: Acho que é um pouco disso como a Elisângela falou, de pensar o que é essa luta do povo brasileiro, e de afirmar quem nós somos na História. Acho que não é só o 20 de novembro, existem outras datas no Brasil. A gente precisa entender o que elas significam pra gente, historicamente. Temos que buscar a nossa afirmação, e não as historinhas européias que a gente vem escutando na escola; levar isso para dentro de nossas casas, discutir, falar disso abertamente, como já falamos sobre outros diversos assuntos. Acredito que o 20 de novembro, como agora também tem o 25 de julho [data estabelecida pela ONU como “Dia da Mulher Negra da América Latina e do Caribe”], são datas em que afirmamos a nossa negritude. Precisamos entender o porquê de nós morarmos em favelas, que isso não é por acaso. É importante trazer essa reflexão e torná-la parte do nosso cotidiano, para que não seja uma discussão isolada ou exclusiva de qualquer data.

Agência RJC: Como a juventude pode se envolver diretamente nessas reflexões, na luta contra o racismo, em especial os jovens negros?

Negro F: Primeiramente, eu vejo que passa pela questão da formação. A escola é um espaço, os movimentos e as ONGs que estão trabalhando com políticas públicas também são um espaço, para que nós, jovens, principalmente a juventude negra, comecemos a criar nossa autonomia. Eu vejo que o Movimento Juventude Negra e Favelada tem cumprido este papel de dialogar diretamente com a juventude que está na favela. Temos visto que algumas discussões raciais têm sido muito centralizadas, às vezes só entre os movimentos negros, e a gente tem feito o trabalho de levar mesmo para a juventude discutir. E eu acho que, como o Juventude Negra e Favelada, existem outros movimentos por aí. A juventude tem que se achar na sua própria comunidade, seja na associação de bairro, seja no grupo do qual ela faz parte, ou se ela não faz parte de nenhum grupo, de repente na escola, para começar a discutir e pensar: por que só 20 de novembro? Será que a questão do negro só deve ser pensada nessa data? A partir disso, poderemos questionar todos os valores que nos são impostos na sociedade. De fato, meu cabelo é crespo; então ele é ruim? O do outro é melhor, ou não? A partir dessas reflexões, então, é preciso procurar os espaços e se politizar.

Elisângela: Os espaços são muito restritos e a escola ainda está muito fechada para a discussão, mas, como o Negro F disse, a gente vai construindo esses espaços. Tem uma lei de 2003, a lei 10.639, que trata da inserção, nos currículos escolares, do ensino da cultura negra e africana, da história de resistência dos negros no Brasil, e que ainda não está sendo executada.

Negro F: E que às vezes é executada só em novembro, por conta do dia 20. Eu mesmo, neste mês, devo ter feito umas dez entrevistas para alunos de escola, por que as escolas obrigaram a fazer, é fim de ano, valia ponto... Mas, repito, eu acho que não deve ser só em novembro, tem que ser uma discussão diária. Acho que a lei é bacana, mas ela tem que ser supervisionada e até mesmo questionada.

Elisângela: Acho que o problema não é a lei, nem questioná-la, o lance é executá-la. A lei não diz respeito só ao 20 de novembro.

Agência RJC: É um parâmetro curricular para todo o ensino...

Elisângela: Sim. Só que ela não está sendo efetivada, porque a escola ainda não está aberta para isso. A cobrança na escola já é uma forma de os jovens se envolverem, como o Negro F falou mesmo. É preciso criar alternativas nos espaços da comunidade, para ampliar o acesso, discutir em casa e poder fazer no cotidiano.

Agência RJC: Ontem, dia 16 de novembro, aconteceu, em Brasília, a primeira Marcha Zumbi +10; no dia 22 vai acontecer a segunda. Houve uma cisão do movimento negro, por divergências ideológicas e de concepção de como deveria acontecer a Marcha. Como vocês percebem o envolvimento dos jovens nesse tipo de questão e qual o significado da Marcha para a construção das políticas de promoção da igualdade racial no Brasil?

Negro F: Eu vejo que, independentemente das divergências do movimento, a data é um marco para a juventude negra, para a população brasileira. A juventude tem que participar, tem que questionar, e até mesmo questionar o próprio movimento negro do porquê dessas questões. Se a gente é negão, se a gente mora em favela, se a gente já vive dividido aos montes, por diversos conflitos econômicos e sociais, por que no momento de brigar pelo que é nosso, por direito, a gente vai se dividir? Eu, particularmente, não sou partidário de nenhuma das duas marchas, mas acho que é importante participar, independente se a gente terá que arrumar uma brecha e ir pra Brasília, arrumar um ônibus ou, de repente, ir a pé mesmo! Então, acho que temos que participar sim, colocar nossa cara, a nossa voz; mais do que nunca, a juventude da periferia deve ocupar os espaços com a sua cara.

Elisângela: E, além de ocupar os espaços, é fundamental participar da construção mesmo. É importante ter gente nova, em todos os lugares. Acaba que fica muita gente antiga, com “vícios”, querendo ou não, e isso não é uma coisa só do movimento negro. É sempre importante ter mais pessoas se envolvendo, participando.

Negro F: A juventude tem que trazer uma cara nova para os movimentos. A gente vive na prática um monte de coisas que o movimento negro questiona, fala e tal. A gente vê no dia-a-dia quem está morrendo, quem está se envolvendo com o crime, os problemas que temos na família, os problemas geográficos, todos os tipos de repressão que sofremos, a falta de acesso a um monte de coisas. Então, os jovens vivem tudo isso na prática, sabem falar sobre essa vivência e têm voz pra poder dizer. Temos que saber ocupar os espaços, chegar e falar: “pô, é isso que a gente está vivendo, queremos essa mudança, e é pra agora”. Não é pra pensar para a próxima eleição ou para a próxima geração. Estamos aí, temos que viver, e não sobreviver a essa guerra.

Elisângela: E a partir da primeira Marcha, que foi há dez anos, houve vários avanços. Eu fico muito triste com a divisão. Uma juventude de cara nova, participando mais ativamente, talvez contribuísse para que essa divisão não acontecesse. E agora vamos ver se, mesmo com esse problema, poderemos reivindicar e colher mais frutos daqui a algum tempo, como desdobramento da Marcha Zumbi +10.

CONTATOS

Movimento Juventude Negra e Favelada: juventudenegraefavelada@hotmail.com
Grupo Cultural NUC: (31) 3468-2245 | grupoculturalnuc@yahoo.com.br

 

VAI ROLAR

6º Desfile da Beleza Negra – Moradores do bairro Justinópolis, no município de Ribeirão das Neves, região metropolitana de BH, estão se preparando desde o mês de setembro para a realização do 6º Desfile da Beleza Negra, evento que surgiu com o intuito de levantar fundos para a igreja católica local e hoje se tornou uma importante referência cultural para toda a comunidade, apesar das dificuldades financeiras e de não contar com nenhum tipo de apoio do poder público. Os organizadores destacam significativos impactos alcançados pela iniciativa, como a construção de uma identidade racial positiva e maior valorização da estética negra entre os participantes.

O desfile acontecerá no dia 19 de novembro, sábado, a partir das 21 horas. Também fazem parte da programação apresentações de capoeira, maculelê e pagode.

INFORMAÇÕES

6º Desfile da Beleza Negra

Onde: Quadra Kolping (Av. Guanabara, 191 – Botafogo II / Justinópolis)
Quando: 19 de novembro, sábado, a partir das 21 horas.
Quanto: R$ 3,00
Ônibus: 2204B (descer no final) ou 5514
Contato: (31) 3638-7976 ou 8897-3181 (Maria Eunice)


7ª Mostra Faverock – O Faverock é um movimento de bandas independentes que, desde 1999, batalha para construir alternativas de expressão, divulgação e de profissionalização de bandas de rock e artistas de periferia. O movimento surgiu no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, e aos poucos vem se expandindo para a Grande BH.

Nos próximos dias 19 e 20 de novembro, o Faverock completa o sétimo ano de atividades contínuas, realizando uma mostra gratuita com 10 shows. A programação começa às 15h do dia 19 e conta com a participação das bandas Ars Debere, Distúrbio, Pelos de Cachorro, Yvitu... e Spiral. No domingo, dia 20, sobem ao palco as bandas Carolina Diz, Formes, In-Solidum, O Grito da Rosa e Seu Silva.

INFORMAÇÕES

7ª Mostra Faverock
Onde: Rua Capivari com Rua Dr. Alípio Goulart – Serra
Quando: 19 e 20 de novembro, de 15 às 22 horas.
Ônibus: 4107, 4102 e 2151 (descer no final)
Contatos: (31) 9148-3976 (Robert Frank) ou 8804-9400 (Mariana Zande)

 

Responsáveis: Áurea Carolina (coordenação, redação e edição),
Warley Bombi (design e editoração) e Rafaela Lima (edição).


Esta agência de notícias faz parte da Rede Jovem de Cidadania,
rede de comunicação comunitária integrada pela juventude
de todas as regiões de Belo Horizonte.

 

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