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02 de Março de 2006 - Ano 03 Boletim # 11 |
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BOCA NO TROMBONE Belo Horizonte é uma das poucas capitais brasileiras que não garantem nenhum tipo de benefício para estudantes no transporte coletivo. Há pelo menos quinze anos, os movimentos estudantis da cidade têm realizado manifestações, passeatas e atos públicos, reivindicando tanto a isenção total do pagamento das passagens, por meio do passe-livre, quanto a redução das tarifas em 50% para estudantes, através do meio-passe. No entanto, pouco se avançou nesse período, devido às dificuldades de pautar a temática na Câmara Municipal de Belo Horizonte, na Prefeitura e mesmo entre os empresários do setor. Nesta edição do Boletim Informativo, a Agência de Notícias traz uma conversa com Renato Campos Amaral, estudante de 18 anos ligado ao movimento estudantil secundarista. Renato é um dos diretores da AMES-BH, Associação Metropolitana dos Estudantes Secundaristas da Grande Belo Horizonte, entidade que tem levantado a bandeira do meio-passe e realizado diversas atividades de mobilização em escolas públicas de Belo Horizonte e região.
Agência RJC: Como surgiu a AMES-BH e quais são as suas ações? Que tipo de reivindicações vocês têm levantado? Renato: A AMES-BH foi criada em 2002. Nessa época, eu nem estava participando ainda do movimento. Em Belo Horizonte não aconteciam muitas passeatas, não tinha muita luta estudantil. Algumas lideranças de grêmios se reuniram e resolveram fundar uma entidade, para fazer alguma coisa na cidade. Quando a AMES surgiu, a questão do passe-livre já estava colocada como uma bandeira histórica do movimento estudantil. Belo Horizonte é uma das únicas capitais brasileiras que não têm nenhum benefício para o estudante em termos de transporte. Na maioria existe meio-passe, ou um terço, ou passe-livre. Nós fomos pelo passe-livre. Só que avaliamos que era uma luta de mais de quinze anos. Nós já lotamos o centro da cidade, com a participação de várias escolas, e isso não foi discutido na Câmara dos vereadores. É uma coisa meio esquisita: a gente faz uma grande passeata, com vinte mil estudantes na rua, e não tem força nenhuma dentro da Câmara! Querendo ou não, precisamos ter algum poder burocrático, pois é lá que a lei será votada. Para que os vereadores nos recebam com papel e assinatura, como eles gostam, temos que estar na rua e também no poder formal. A gente percebeu, então, que o meio-passe é algo mais possível. Foi assim no Rio de Janeiro: os estudantes lutavam pelo meio-passe e, com a força que adquiriu o movimento, conseguiram o passe-livre direto. Em Recife, conseguiram o meio-passe e agora estão lutando pelo passe-livre. É um processo de luta. Por isso, nós acreditamos no meio-passe como sendo uma proposta mais possível, mais concreta e mais discutível com os vereadores, com a BHTrans [empresa vinculada à Prefeitura de Belo Horizonte, responsável pelo gerenciamento do trânsito e do transporte na cidade] e até com os empresários. Essa é a nossa principal bandeira. Recentemente, tivemos a iniciativa de organizar um abaixo-assinado pela inclusão da filosofia e da sociologia no ensino de toda a rede pública estadual de Minas Gerais. Essa ação representa um contraponto ao modelo tecnicista de ensino, que adestra o estudante para o mercado de trabalho com matérias prontas e fórmulas decoradas. Buscamos uma educação integral, que abre espaço para a reflexão e que contribui para a formação humana dos sujeitos. Isso é muito mais complexo e não é de interesse do Estado. Outra luta importante é pelo fim do vestibular, que é um método excludente de “fornecer educação” para os estudantes brasileiros. Nós também confeccionamos carteiras de estudante, que são, inclusive, uma fonte de renda para a sobrevivência da entidade. Realizamos festas e eventos culturais e temos, ainda, o objetivo de fundar grêmios nas escolas. Não queremos que a AMES tenha presença em apenas uma ou duas delas. Temos que ir a diversos lugares e não ficar restritos a BH. Pegamos contatos com estudantes, visitamos as escolas, falamos como é a organização de um grêmio, entre outras coisas. O grêmio, geralmente, é o primeiro passo político do jovem. Tem muita gente que quer fundar um, mas não sabe como fazer. Acha que é complicado... Nós entregamos pro estudante um projeto de formação de grêmio, que traz orientações importantes. Se precisar, vamos à escola e ajudamos a fundar. Isso é até uma forma de agregar mais escolas. Afinal, para conseguir o meio-passe, precisamos fazer muitas passeatas e manifestações. Quando mais grêmios estiverem conosco e participarem efetivamente da entidade, mais pessoas acreditarão nessa luta e teremos mais chances de alcançar nossos objetivos. Hoje, quando passamos em salas de aula para falar de passe-livre, muita gente já não acredita mais. E até em meio-passe tem gente que já está perdendo um pouco a fé. Então tentamos convencer as pessoas da possibilidade de conquistarmos o meio-passe e citamos exemplos de várias capitais do Brasil. Por que aqui é diferente? A gente percebe quando passa em sala que tem aquele cara que assiste Malhação todo dia e acredita em tudo que o jornal fala... A gente chama esse cara pra participar da passeata. Às vezes, ele vai só pra matar aula. E tem aquele que nem vai. Fundando o grêmio na escola, ele terá condições de levar reivindicações para a diretoria, de maneira organizada. “O grêmio está aqui reclamando que na sala A não tem luz, na sala B não tem lixeira, na sala C não tem carteira.” Esse jovem poderá perceber que isso não é culpa da diretora, necessariamente. Não é porque ela é ruim ou porque ela rouba dinheiro da escola. É uma coisa do poder público, que não fornece a devida educação para o estudante. Então, temos que lutar por uma educação de qualidade não só dentro da escola. A gente fortalece essa luta com todas as escolas juntas e com a sociedade. O jovem, assim, vê que o processo é muito maior. É uma luta contínua na vida da pessoa. Pela educação, pelo trabalho, pela cultura, para a cidadania. Agência RJC: Como é a relação do movimento estudantil com outros movimentos juvenis, como os grupos culturais, por exemplo? Renato: Quando a gente conversa com o pessoal da cultura, a gente vai pela questão da conscientização. O jovem não precisa ir a todas as passeatas ou ser um fã da AMES! Queremos que o estudante tenha consciência, que o jovem tenha consciência do seu poder. O jovem tem o espírito de construir um mundo melhor. Na última passeata que realizamos, no intervalo em que saiu uma comissão para conversar com representantes da Prefeitura de BH, nós colocamos um som do Raul Seixas, até para o pessoal não ir embora. Ficou uma galera cantando Metamorfose Ambulante na porta da prefeitura! A cultura está interligada com essa consciência. José Martí, que foi um revolucionário cubano, falava que ser culto é ser livre. Quando a gente forma um grêmio em escola, uma das principais diretorias é a diretoria de cultura. Pela cultura é que a gente consegue conscientizar o jovem. Ele pode ouvir um discurso de Fidel Castro por quatro horas e não entender nada. Mas uma peça de teatro ou uma música da Legião Urbana às vezes entram muito mais na cabeça do que um discurso, do que passar em sala todo dia para falar da mesma coisa. Fica até um pouco chato passar em sala sempre... A cultura consegue chegar em jovens que a gente não alcança. Essa questão cultural é muito abrangente e é por isso que a gente realiza muitas festas, como o AMES Rock Festival, e promove algumas bandas, pra tocar nas escolas. A gente quer ter parceria com grupos teatrais, para que haja intervenções e apresentações culturais nas passeatas, por exemplo. Não queremos passeatas só de gritaria. O movimento estudantil, por ser jovem, é muito irreverente. Em uma das nossas passeatas, tinha um estudante vestindo uma camiseta estampada com a frase “Meu pai não é deputado”. Quer dizer, “preciso do meio-passe”! O dinheiro da passagem em BH [R$ 1,85] equivale a quase dez pães. Eu quero comer ou ir para a escola? Muitas vezes, o jovem tem que escolher. Agência RJC: Em que pé está hoje essa discussão, na Câmara Municipal de Belo Horizonte? Renato: No próximo dia 30 de março vai acontecer uma audiência pública na Câmara para discutir o meio-passe. Faremos uma passeata antes disso, no dia 16 de março, e dependendo do resultado da audiência faremos outras. Vamos avançar mais radicalmente na luta e, talvez, até acampar na frente da Câmara! É um direito nosso e temos que lutar. A gente não pode ficar esperando o vereador querer votar ou não. Nós estamos nos preparando para essa audiência pública. A manifestação do dia 16 será um ensaio geral de como é que iremos agir. Muitas vezes as votações são canceladas por falta de quorum. Quando a questão não é de interesse de determinados vereadores, eles esvaziam o plenário mesmo. Por isso nós vamos encher aquela Câmara para que nenhum vereador tenha coragem de sair de lá! A gente vai filmar e prestar atenção em todo mundo: quem votou contra, quem é inimigo do estudante, quem está a favor. A discussão está, hoje, numa etapa mais burocrática. Fizemos três passeatas pelo meio-passe no ano passado. Em 2006, fizemos uma contra o aumento das tarifas e não deixamos de falar do meio-passe. No dia 30, tentaremos levar entidades e grêmios estudantis para garantir a votação na audiência pública. Nós só conseguimos essa audiência, aliás, porque nós ocupamos a Câmara. Agência RJC: Além da luta pelo meio-passe, como vocês se inserem no contexto de mobilização pelas políticas públicas de juventude? Renato: A gente se insere como movimento estudantil, para discutir, principalmente, a educação e os direitos dos estudantes. Quando falamos do grêmio, é porque acreditamos na importância de o estudante ter uma representação dentro da sua escola. De modo geral, os estudantes não são considerados pela direção. São vistos como um rebanho. Terminado o horário de aula, o rebanho passa pela porteira e vai embora para casa. As bases democráticas começam a ser construídas dentro da escola, através da participação, e ganham amplitude para que o jovem participe na sua cidade, no país. Não existe uma escola sem estudantes. Somos a maioria e temos poder de organização. O que não pode acontecer é não escutar o estudante. “Ah, eu acho que o estudante pensa assim. Eu sou pedagogo, eu acho que é assim. Eu sou professor, trabalho há doze anos na rede municipal, eu acho que é assado.” Isso é complicado. É preciso ouvir os estudantes, saber o que, de fato, pensamos e sentimos. O mesmo deve acontecer na construção das políticas de juventude. A fala dos jovens tem que ser considerada.
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por esta edição: Áurea Carolina (redação),
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