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BOCA
NO TROMBONE
A
agência de notícias traz, hoje, uma entrevista com Roberto
Raimundo, de 27 anos, integrante do coletivo Hip Hop
Chama e do grupo D.vEr.CidaDe Cultural. Roberto,
que também participa do Fórum de Entidades e Movimentos
Juvenis da Grande BH, vem falar sobre desafios para a ampliação
da participação juvenil e a construção de
políticas públicas de juventude, especialmente no contexto
de Belo Horizonte.
Agência RJC: Como você
avalia os processos construção das políticas públicas
de juventude em BH nos últimos anos?
Roberto: O D.vEr.CidaDe
Cultural e a ONG Contato estão entre os primeiros grupos que
levantaram essas questões em Belo Horizonte. Desde 2002, pelo
menos, temos realizado seminários e atividades de mobilização
com o objetivo de envolver mais jovens e ampliar o debate local, e temos
conseguido avançar nesse sentido. A criação da
Coordenadoria Municipal de Juventude, em 2005, por exemplo, foi uma
conquista significativa, apesar de existirem problemas na sua gestão.
Não deixa de ser uma vitória do movimento organizado.
Do lado da sociedade civil, criamos o Fórum de Entidades e Movimentos
Juvenis da Grande BH, que é uma frente importante, embora ainda
não conte com uma participação tão expressiva
de jovens. Outro avanço é o ProJovem. Mesmo com problemas
e ainda que haja críticas a serem feitas, o programa consegue
atingir uma parcela da juventude que está totalmente fora das
políticas públicas.
Hoje percebo que um aspecto de grande importância do debate em
torno das políticas de juventude está em fazer com que
a cidade passe a reconhecer as nossas demandas. Precisamos publicizar
essa discussão cada vez mais e chamar a atenção
da sociedade para questões como passe-livre, planejamento familiar,
primeiro emprego, educação, mostrando que existe uma lacuna
muito grande entre o que o jovem necessita e o que o poder público
oferece. É aí que deve entrar a política pública.
O Estado tem que perceber essa distância.
Agência RJC: Quais são
suas impressões acerca da participação juvenil
em Belo Horizonte?
Roberto: Parece que o
movimento só não está mais organizado em BH porque
os jovens têm outras necessidades e muitas vezes não colocam
a atuação política como uma prioridade absoluta
em suas vidas. Às vezes, o jovem acha que não ter dinheiro
pra pagar passagem ou pra freqüentar algum espaço cultural
é um problema só dele. No entanto, milhares, assim como
ele, enfrentam as mesmas dificuldades todos os dias.
Acho que a participação ainda fica muito atrelada e restrita
às pessoas que trabalham profissionalmente com a juventude. Esse,
inclusive, é o meu caso. O fato de eu trabalhar como assessor
de um vereador me permite, hoje, ficar por conta dessas discussões.
Sou remunerado pra isso. Se a gente for ver bem, quem tem mais condições,
tempo e disponibilidade de participar são as pessoas que têm
suporte do poder público, das ONGs ou dos partidos.
Percebo que os jovens que não estão vinculados a nenhum
partido político ou a nenhum grupo cultural acabam não
tendo os incentivos e os subsídios necessários para participar.
E aí, muitos não vão participar mesmo e alguns
vão participar muito pouco, só ocasionalmente. Até
a forma como o mundo adulto se organiza acaba excluindo o jovem da participação.
Uma reunião às duas horas da tarde, por exemplo, é
uma barreira para quem trabalha ou estuda nesse horário. Não
tem como o cara participar!
Além disso, acredito que nós precisamos pensar algumas
bandeiras que nos unifiquem enquanto juventude nessa cidade, como o
meio-passe ou o passe-livre, por exemplo. Recentemente, o movimento
estudantil fez uma grande manifestação na Praça
Sete, mas só com jovens estudantes. O ato não envolveu
o Hip Hop, skatistas, os grupos culturais, das igrejas, do teatro...
A juventude ainda não consegue conversar com toda a juventude.
Estamos fragmentados em vários movimentos e não apontamos
prioridades comuns. Sinto que temos pouca voz e pouca iniciativa pra
cobrar. Só vamos conseguir alguma coisa se formos pra rua, de
forma consciente, sabendo o que queremos. Mas não adianta a gente
ir pra rua com mil bandeiras. Precisamos buscar entendimentos e convergências,
o que não significa passar por cima das especificidades.
Também sinto que falta um discurso da utopia, que motive o pessoal.
Se quisermos avançar, o nosso grau máximo de manifestação
não pode ser somente uma carta de repúdio. Temos que romper
com esse modelo institucionalizado demais e sair do discurso. Temos
que colocar a nossa teoria na prática. E tentar trazer os jovens
de outros movimentos, porque existem vários jovens em BH que
estão pensando coisas coletivas. Na política, quem grita
mais é que vai levar. E nós estamos perdendo, porque estamos
gritando pouco.
Agência RJC: Como você
percebe, mais especificamente, a discussão a respeito do Plano
Nacional de Juventude?
Roberto: O Plano Nacional
de Juventude deve ser uma política de Estado. Independente do
que aconteça, tem que permanecer. Finalmente o governo federal
antenou para a necessidade das políticas de juventude. O Estado
tem essa dívida histórica com a gente. Mas não
é de graça. O atual governo percebeu que a juventude é
a bola da vez. São quase 50 milhões de jovens de 15 a
29 anos, sendo que quase todos, provavelmente, são eleitores.
A gente pode pensar, portanto, que a juventude tem potencial de decidir
uma eleição.
O plano é uma das lutas, mas com certeza a corrida não
termina por aí. Precisamos nos mobilizar para acompanhar esse
processo de perto. Eu acho que o plano vai dar uma referência
para os municípios e os estados trabalharem, de forma a estabelecer
diretrizes para que uma cidade do interior, por exemplo, não
precise começar do zero na construção dessas políticas.
A juventude tem que pressionar os deputados e batalhar para que as especificidades
sejam consideradas. Um jovem que vive numa área urbana em Minas
Gerais é diferente de um que vive numa área rural do Amazonas.
A realidade é muito diversa. Isso tudo tem que ser garantido
no texto. Mas nós não podemos esquecer que o texto é
só um texto. No Brasil existem várias leis. Em BH existem
mais de nove mil leis. Letra morta não muda nada! Temos que fazer
o exercício de colocar esse plano em prática. Denunciar,
cobrar, agir.
Agência RJC: Pensando na
superação das dificuldades que marcam esse cenário,
que perspectivas você apontaria em termos de organização
e mobilização da juventude nos diferentes municípios?
Roberto: Eu acho que a
gente já tem alguns espaços institucionais para reivindicar
direitos. Podemos propor a criação de frentes e comissões
parlamentares de juventude, no caso do poder legislativo. Também
é necessário criar conselhos e fóruns municipais
de juventude. Numa cidade muito grande, como BH, poderíamos criar
fóruns regionais também. Temos que abrir espaços
de participação e dar condições para que
o jovem participe, porque não adianta nada ter o espaço
e o cara não ter R$ 1,85 pra pagar a passagem para vir até
o centro. E nesse processo vamos aprendendo, entendendo a dinâmica
da política, exercendo o controle social, fiscalizando os gastos
públicos, construindo uma cidadania participativa. Vamos nos
apropriando do que é nosso por direito. Temos que defender a
realização de políticas para a coletividade, fora
da lógica individualista. Sair da abstração e pensar
de fato em alternativas para o lazer, a produção cultural,
a educação, a saúde, a sexualidade. Um orçamento
participativo juvenil, por exemplo, poderia ser uma medida concreta.
Acho que a parada é o presente. O amanhã vai ser melhor,
sim, porque a gente vem batalhando por transformações
no presente.
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Esta agência de notícias
faz parte da Rede Jovem de Cidadania,
rede de comunicação comunitária integrada por jovens
de todas as regiões de Belo Horizonte.
Responsáveis
por esta edição: Áurea Carolina (redação),
Warley Bombi (design e editoração) e Rafaela Lima (coordenação
e edição).

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