jBelo Horizonte, 06 de abril de 2006 - Ano 03 Boletim # 17

BOCA NO TROMBONE

A agência de notícias traz, hoje, uma entrevista com Roberto Raimundo, de 27 anos, integrante do coletivo Hip Hop Chama e do grupo D.vEr.CidaDe Cultural. Roberto, que também participa do Fórum de Entidades e Movimentos Juvenis da Grande BH, vem falar sobre desafios para a ampliação da participação juvenil e a construção de políticas públicas de juventude, especialmente no contexto de Belo Horizonte.


Agência RJC: Como você avalia os processos construção das políticas públicas de juventude em BH nos últimos anos?

Roberto: O D.vEr.CidaDe Cultural e a ONG Contato estão entre os primeiros grupos que levantaram essas questões em Belo Horizonte. Desde 2002, pelo menos, temos realizado seminários e atividades de mobilização com o objetivo de envolver mais jovens e ampliar o debate local, e temos conseguido avançar nesse sentido. A criação da Coordenadoria Municipal de Juventude, em 2005, por exemplo, foi uma conquista significativa, apesar de existirem problemas na sua gestão. Não deixa de ser uma vitória do movimento organizado. Do lado da sociedade civil, criamos o Fórum de Entidades e Movimentos Juvenis da Grande BH, que é uma frente importante, embora ainda não conte com uma participação tão expressiva de jovens. Outro avanço é o ProJovem. Mesmo com problemas e ainda que haja críticas a serem feitas, o programa consegue atingir uma parcela da juventude que está totalmente fora das políticas públicas.

Hoje percebo que um aspecto de grande importância do debate em torno das políticas de juventude está em fazer com que a cidade passe a reconhecer as nossas demandas. Precisamos publicizar essa discussão cada vez mais e chamar a atenção da sociedade para questões como passe-livre, planejamento familiar, primeiro emprego, educação, mostrando que existe uma lacuna muito grande entre o que o jovem necessita e o que o poder público oferece. É aí que deve entrar a política pública. O Estado tem que perceber essa distância.

Agência RJC: Quais são suas impressões acerca da participação juvenil em Belo Horizonte?

Roberto: Parece que o movimento só não está mais organizado em BH porque os jovens têm outras necessidades e muitas vezes não colocam a atuação política como uma prioridade absoluta em suas vidas. Às vezes, o jovem acha que não ter dinheiro pra pagar passagem ou pra freqüentar algum espaço cultural é um problema só dele. No entanto, milhares, assim como ele, enfrentam as mesmas dificuldades todos os dias.

Acho que a participação ainda fica muito atrelada e restrita às pessoas que trabalham profissionalmente com a juventude. Esse, inclusive, é o meu caso. O fato de eu trabalhar como assessor de um vereador me permite, hoje, ficar por conta dessas discussões. Sou remunerado pra isso. Se a gente for ver bem, quem tem mais condições, tempo e disponibilidade de participar são as pessoas que têm suporte do poder público, das ONGs ou dos partidos.

Percebo que os jovens que não estão vinculados a nenhum partido político ou a nenhum grupo cultural acabam não tendo os incentivos e os subsídios necessários para participar. E aí, muitos não vão participar mesmo e alguns vão participar muito pouco, só ocasionalmente. Até a forma como o mundo adulto se organiza acaba excluindo o jovem da participação. Uma reunião às duas horas da tarde, por exemplo, é uma barreira para quem trabalha ou estuda nesse horário. Não tem como o cara participar!

Além disso, acredito que nós precisamos pensar algumas bandeiras que nos unifiquem enquanto juventude nessa cidade, como o meio-passe ou o passe-livre, por exemplo. Recentemente, o movimento estudantil fez uma grande manifestação na Praça Sete, mas só com jovens estudantes. O ato não envolveu o Hip Hop, skatistas, os grupos culturais, das igrejas, do teatro... A juventude ainda não consegue conversar com toda a juventude. Estamos fragmentados em vários movimentos e não apontamos prioridades comuns. Sinto que temos pouca voz e pouca iniciativa pra cobrar. Só vamos conseguir alguma coisa se formos pra rua, de forma consciente, sabendo o que queremos. Mas não adianta a gente ir pra rua com mil bandeiras. Precisamos buscar entendimentos e convergências, o que não significa passar por cima das especificidades.

Também sinto que falta um discurso da utopia, que motive o pessoal. Se quisermos avançar, o nosso grau máximo de manifestação não pode ser somente uma carta de repúdio. Temos que romper com esse modelo institucionalizado demais e sair do discurso. Temos que colocar a nossa teoria na prática. E tentar trazer os jovens de outros movimentos, porque existem vários jovens em BH que estão pensando coisas coletivas. Na política, quem grita mais é que vai levar. E nós estamos perdendo, porque estamos gritando pouco.

Agência RJC: Como você percebe, mais especificamente, a discussão a respeito do Plano Nacional de Juventude?

Roberto: O Plano Nacional de Juventude deve ser uma política de Estado. Independente do que aconteça, tem que permanecer. Finalmente o governo federal antenou para a necessidade das políticas de juventude. O Estado tem essa dívida histórica com a gente. Mas não é de graça. O atual governo percebeu que a juventude é a bola da vez. São quase 50 milhões de jovens de 15 a 29 anos, sendo que quase todos, provavelmente, são eleitores. A gente pode pensar, portanto, que a juventude tem potencial de decidir uma eleição.

O plano é uma das lutas, mas com certeza a corrida não termina por aí. Precisamos nos mobilizar para acompanhar esse processo de perto. Eu acho que o plano vai dar uma referência para os municípios e os estados trabalharem, de forma a estabelecer diretrizes para que uma cidade do interior, por exemplo, não precise começar do zero na construção dessas políticas. A juventude tem que pressionar os deputados e batalhar para que as especificidades sejam consideradas. Um jovem que vive numa área urbana em Minas Gerais é diferente de um que vive numa área rural do Amazonas. A realidade é muito diversa. Isso tudo tem que ser garantido no texto. Mas nós não podemos esquecer que o texto é só um texto. No Brasil existem várias leis. Em BH existem mais de nove mil leis. Letra morta não muda nada! Temos que fazer o exercício de colocar esse plano em prática. Denunciar, cobrar, agir.

Agência RJC: Pensando na superação das dificuldades que marcam esse cenário, que perspectivas você apontaria em termos de organização e mobilização da juventude nos diferentes municípios?

Roberto: Eu acho que a gente já tem alguns espaços institucionais para reivindicar direitos. Podemos propor a criação de frentes e comissões parlamentares de juventude, no caso do poder legislativo. Também é necessário criar conselhos e fóruns municipais de juventude. Numa cidade muito grande, como BH, poderíamos criar fóruns regionais também. Temos que abrir espaços de participação e dar condições para que o jovem participe, porque não adianta nada ter o espaço e o cara não ter R$ 1,85 pra pagar a passagem para vir até o centro. E nesse processo vamos aprendendo, entendendo a dinâmica da política, exercendo o controle social, fiscalizando os gastos públicos, construindo uma cidadania participativa. Vamos nos apropriando do que é nosso por direito. Temos que defender a realização de políticas para a coletividade, fora da lógica individualista. Sair da abstração e pensar de fato em alternativas para o lazer, a produção cultural, a educação, a saúde, a sexualidade. Um orçamento participativo juvenil, por exemplo, poderia ser uma medida concreta. Acho que a parada é o presente. O amanhã vai ser melhor, sim, porque a gente vem batalhando por transformações no presente.


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Responsáveis por esta edição: Áurea Carolina (redação), Warley Bombi (design e editoração) e Rafaela Lima (coordenação e edição).

 

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