Belo Horizonte, 11 de maio de 2006 - Ano 03 Boletim # 24

BOCA NO TROMBONE

A Agência de Notícias da Rede Jovem de Cidadania traz, hoje, uma entrevista com a jovem Mariana Zande, do movimento Faverock. Mariana tem 18 anos e faz parte da banda O Grito da Rosa, do Aglomerado da Serra. Nessa conversa, ela fala sobre a construção do Faverock, cultura negra e participação das mulheres no rock, produção cultural independente e políticas públicas de juventude.

Agência RJC: Como surgiu o Faverock?

Mariana: O Faverock surgiu em 1999, no Aglomerado da Serra [regional centro-sul de Belo Horizonte]. Quatro bandas que não tinham muito espaço para tocar resolveram fazer um evento de rock no morro, na rua. A idéia inicial era de realizar só um evento mesmo. Daí todos fizeram um “junta-junta” de aparelhagem: alguns já tinham equipamentos de ensaio – um tinha um amplificador de guitarra, o outro tinha um amplificador de baixo, o outro uma bateria... Foi dessa forma que rolou de fazer o evento, que aconteceu numa pracinha que fica num dos pontos mais altos da Serra. A repercussão foi muito legal, muito positiva. Na época, eu ainda não estava no Faverock.

Agência RJC: Já era Faverock, esse primeiro evento?

Mariana: O primeiro, não. Virou Faverock a partir do segundo, mas o nome saiu do primeiro, com o pessoal zoando no microfone durante as apresentações. “Ah, é o ‘faverock’, é o rock da favela...”

Todos ficaram muito empolgados por terem conseguido realizar um evento por conta própria e, no mesmo ano, fizeram o segundo, que foi em outro local. Foi no “meião” do morro. Esse virou a noite! Foi muito bem aceito. O pessoal começou a pensar numa proposta mais séria, de não ser só o evento, só o show, que fosse uma coisa mais de união das bandas e tal, e de fazer uma mostra uma vez por ano.

No ano 2000 não aconteceu o evento e em 2001 teve o terceiro Faverock, que já contava com dez bandas. Essa mostra foi mais bem organizada e teve, inclusive, patrocínio. Naquele momento, alguns integrantes do Faverock estavam participando do programa Arena da Cultura, da Prefeitura de BH, e conheceram o Hamilton Borges [ator baiano e militante do Movimento Negro]. Ele gostou muito da idéia dos meninos e deu a maior força. Ajudou na articulação e aí veio o apoio da Prefeitura, para aparelhagem e palco. Esse terceiro evento também foi significativo porque aconteceu num local que é meio “fronteira”, a divisa entre a favela e o bairro Serra. E para aquele local realmente precisávamos de uma estrutura maior e mais adequada.

Agência RJC: Como você percebe a presença do Faverock na cidade e na Grande BH?

Mariana: Pelo que já fizemos e pelo que a gente ouve falar, eu acho que o Faverock, muitas vezes, se torna uma referência. O movimento existe desde 1999. Em 2006, vamos realizar a 8ª mostra. Dentro de um meio em que o reconhecimento é muito difícil e os motivos para você parar são muitos, oito anos é muita coisa!

Agência RJC: Como o Faverock se organiza? Que tipo de ação vocês têm hoje na Grande BH?

Mariana: A partir dos eventos, passamos a desenvolver a idéia de fazer do Faverock um espaço para as bandas de periferia de BH discutirem seus próprios trabalhos e trocarem experiências. O rock ainda fica como uma coisa distante do pessoal de favela. Tem um preconceito da sociedade, de dizer que o rock não é do negro. Tem gente do Faverock que já ouviu “ah, você é preto, tem que tocar samba”. Na verdade, o Faverock também busca resgatar isso, que o rock veio do negro, veio do blues. O blues, apesar da sonoridade ser diferente, tem história parecida com a do samba. Assim como a tradução de blues é “tristeza”, um dos significados do samba é “lamento”. Tem muito a ver com a expressão da favela. E, além de tudo, tem gente que espontaneamente faz rock na favela. Então, não há porque dizer que não é legítimo.

O Faverock foi se ampliando nessas discussões, na troca entre as bandas. Desde 2001, as mostras normalmente acontecem na fronteira bairro / favela – entre as ruas Alípio Goulart e Capivari. Em 2002, rolou uma mostra muito legal, em termos de estrutura e visibilidade. Em 2003, contamos com o apoio do Expresso Melodia, um projeto da Fundação Clóvis Salgado. Na 6ª mostra, que aconteceu em 2004, tivemos alguns problemas com estrutura, mas acabou rolando. No ano passado, tivemos um problema maior e não conseguimos a estrutura. Houve atrasos na resposta do patrocínio e a gente teve que realizar o evento no Fernando Rock Bar, que fica lá perto também.

Em 2004, começamos a realizar circuitos, eventos menores, com poucas bandas – na mostra tocam todas as bandas do Faverock –, para levar o movimento a outras regiões e agregar mais pessoas. Antes, não tínhamos critério nenhum para a entrada de novas bandas, e o circuito vem como uma forma de organizar isso. O Faverock é construído pelas bandas. Quem está ali tocando é quem ficou o ano inteiro ralando para conseguir aquele palco, aquele som. E, pra ver se a banda tem mesmo a capacidade de atuar coletivamente, a gente faz o circuito, avalia o trabalho e a participação nessa construção e, dependendo de como for, a banda é incorporada ao Faverock.

Agência RJC: Como você começou a participar do Faverock?

Mariana: Comecei em 2002. Eu conhecia alguns integrantes das bandas Pêlos de Cachorro e In-solidum, e fui à 4ª mostra. Eu já ouvia falar do Faverock, mas foi no dia da mostra que eu saquei a dimensão daquilo. Vi bandas muito boas mandando ver no palco. Também me provocou a questão da localização – você olha de um lado e vê o morro; de outro, só prédios. Foi quando eu me liguei no que estava acontecendo ali. A identificação foi imediata.

Agência RJC: Fale sobre sua banda, O Grito da Rosa. Como surgiu e como foi a entrada para o Faverock?

Mariana: Antes de entrar para o Faverock, eu já tocava e tinha interesse pelo rock. Tinha montado algumas bandas, inclusive, mas nada que durasse. Desde que entrei, eu falava que tinha que montar uma banda e tal. O pessoal sempre colocou muita pilha também: “precisa ter uma banda de mulher na Serra”. Eu fiquei sabendo de uma menina, que eu conhecia de vista, que estava aprendendo a tocar bateria. Ficamos um tempão procurando uma guitarrista mulher, mas não encontramos. Um amigo meu topou tocar com a gente, e mantemos essa formação até hoje.

Agência RJC: Como você vê a participação feminina no Faverock e no rock em geral?

Mariana: O rock tem vários segmentos e alguns são mais machistas. Existem segmentos extremamente machistas e outros que não têm nada a ver. Mas eu também acho que existe uma certa resistência das mulheres. Tenho amigas que gostam de rock e que, muitas vezes, não fazem quase nada relacionado a isso. Eu fico incentivando: “começa a tocar! vem ralar no Faverock! vamos fazer isso, aquilo!”. Mas muitas meninas ainda são descrentes e não encaram trabalhar no movimento cultural. Falta incentivo, talvez. O movimento cultural, infelizmente, no contexto e na cidade em que vivemos, ainda não é valorizado.

Agência RJC: Pensando nas conferências de juventude que acontecerão em Belo Horizonte no final do mês, como a atuação do Faverock e de outros movimentos culturais pode influenciar na construção das políticas públicas de juventude?

Mariana: O fato de a juventude mostrar que pode se organizar para brigar por algo, e está mesmo brigando por muitas coisas, eu acho que inevitavelmente pressiona o poder público. Eu ouvi há pouco tempo um cara dizendo que Belo Horizonte vai explodir, tanto politicamente, quanto culturalmente! Tem gente que vem a Belo Horizonte pra saber do Clube da Esquina, enquanto estão pipocando trilhões de outras coisas na cidade! Eu acho mesmo que Belo Horizonte está tendendo a explodir, porque o pessoal está cada vez mais organizado e tem cada vez mais gente reconhecendo essa mobilização. Vai chegar num ponto, e a gente vem batalhando pra isso, que não terá mais como o poder público não ver o que a gente tá fazendo, nem ignorar que a gente tá reivindicando algo que precisa existir.

Agência RJC: Que tipo de reivindicações vocês têm levantado?

Mariana: Por ser um movimento que trabalha com arte, as nossas reivindicações estão dentro desse campo. Uma coisa que nos faz quebrar a cabeça é a continuidade no próprio Faverock, por exemplo. Não há nenhuma mobilização externa para que movimentos como o nosso continuem, o que é um grande problema. Na questão artística, vejo que muitas pessoas, mesmo tendo um trabalho super legal – pode ser num grupo de rap ou de rock, na dança, no artesanato –, não conseguem se estabilizar na produção, tipo um cara que é guitarrista e tem que se virar como motoboy. Não pode viver de ser guitarrista, por mais que a música seja o que ele faz de melhor.

Falta articulação política nesse sentido, de valorizar o artista e criar condições para que ele produza. Isso é pouco discutido nos meios mais altos. É uma questão com que a gente sofre muito, por não ter uma política direcionada. Um músico só ganha alguma legitimidade quando tem a carteira da Ordem dos Músicos. Isso é muito questionável, porque é uma carteira fácil de conseguir. A pessoa não precisa saber muito de música. É um vínculo movido muito mais pelo pagamento anual do que por qualquer outra coisa. A gente sabe que a Ordem dos Músicos poderia trazer benefícios pra gente, mas, infelizmente, a realidade não é essa.

São esses conjuntos de políticas para a nossa situação que nós costumamos pensar e, é claro que, por trás disso, a gente puxa toda uma discussão social, relacionada à inclusão e à arte como uma possibilidade de despertar as pessoas para novas perspectivas. Acho que os movimentos culturais de Belo Horizonte, hoje, são instrumento de transformação de perspectivas, mas ainda não são de inclusão.

A gente tem essa preocupação. Na 6ª mostra, a gente buscou variar as atividades para a comunidade, para além dos shows. A gente transformou a mostra realmente numa mostra. Teve oficinas de circo, de voz – que não era só direcionada para o rock, mas para o canto em geral –, de baixo, bateria... Sempre temos muitas idéias, só que não conseguimos executar tudo. A gente tem projetos de oficinas permanentes, para acontecer nas escolas, durante os finais de semana. O Faverock tem músicos capacitados para dar aula. Tem pessoas que, através do Faverock, começaram a tocar e que hoje podem repassar isso. No entanto, precisamos de grana para realizar tudo que pensamos e queremos.

Contatos: marianazande@hotmail.com | faverock@hotmail.com

 

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Responsáveis por esta edição: Áurea Carolina (redação), Warley Bombi (design e editoração) e Rafaela Lima (coordenação e edição).

 

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