Belo Horizonte, 21 de julho de 2006 - Ano 03 Boletim # 36

ESPECIAL ALDEIA KILOMBO SÉCULO 21

Fechando a cobertura especial da Aldeia Kilombo Século 21 durante o mês de julho, a agência de notícias da Rede Jovem de Cidadania apresenta hoje um texto das jornalistas Carem Abreu e Júnia Bertolino, responsáveis pela assessoria de comunicação e pela coordenação de produção do projeto, respectivamente. O texto traz um balanço sobre as principais realizações da Aldeia até o momento e abre reflexões sobre o significado da iniciativa para a cidade de Belo Horizonte.

 

Quem canta sua aldeia, canta o mundo!

Aldeia Kilombo Século 21 se firma como
rede de mobilização social, cultural e política em BH

O mês de julho de 2006 vai ficar na história da cultura em Belo Horizonte: pela primeira vez um movimento social, representado pelo Coletivo de Entidades de Cultura de Raiz de Matriz Africana, juntamente com a COMACON – Coordenadoria Municipal de Assuntos da Comunidade Negra, garantiu a participação efetiva na criação, gestão e execução de um projeto dentro do Festival de Arte Negra, através da mobilização política junto à Fundação Municipal de Cultura. Esta conquista foi nomeada de “Aldeia Kilombo Século 21”. Aldeia porque manifestações de raiz como dança afro, capoeira angola, reggae, condombe, congado, samba, religiosidades de matriz africana e hip hop possuem uma identidade cultural comum. Kilombo porque tais expressões não recebem do poder público e da mídia o valor e a visibilidade necessários para que deixem de ser praticadas essencialmente nos guetos sociais. E, principalmente, porque a diferença do quilombo secular para o de hoje é apenas temporal, pois os preconceitos e as desigualdades sociais e raciais só fizeram subestimar e guetificar o povo e a cultura afro-brasileiros.

Mas tudo que é bom tem seu brilho próprio, e isso não há como ofuscar. Assim, a Praça da Estação, cinco parques de BH e as comunidades do Alto Vera Cruz, Saudade, São Geraldo e Mariano de Abreu foram palco, na primeira quinzena de julho, de dias de luta, resistência e realizações. Essa construção foi possível graças à valorização do notório saber de mestres antigos da cultura negra e da colaboração de diversos agentes culturais. Foram momentos intensos de reflexões e encantamento com a beleza e o talento de mais de 50 apresentações, rodas de conversas, exibição de documentários, cortejo, oficinas de capoeira angola, meio ambiente, artesanato, dança e estética afro.

Re:territorialização à vista

A Aldeia Kilombo Século 21 possibilitou que a expressividade e as experiências do negro fossem discutidas e valorizadas, criando momentos inusitados e de axé (força vital), seja nas letras instigantes e poéticas do rap, na ancestralidade da religiosidade de matriz africana, na performance corporal e rítmica da dança afro, na ritualidade, musicalidade e filosofia da capoeira angola, no gestual e na irreverência do reggae e na alegria e criatividade do samba. E mais: lá foram levantadas propostas reais de inclusão das manifestações afro-brasileiras nas políticas públicas. A Aldeia Kilombo Século 21 promoveu interlocuções entre esferas governamentais e representantes da cultura popular afro-brasileira e iniciou a implementação de estratégias de re-territorialização desenvolvidas outrora pela população negra de Belo Horizonte.

A Aldeia também mostrou que os afro-descendentes e diversos educadores estão preocupados e atentos com as discussões sobre a lei 10.639/03, que estabelece a obrigatoriedade do ensino da história da África e da cultura afro-brasileira nas escolas. Foi patente no evento a avaliação de como é necessário e oportuno trabalhar a divulgação das manifestações culturais nas escolas e em outros espaços de formação. Esses trabalhos devem levar em conta diversas áreas da cultura, como culinária, literatura, cinema, artes plásticas, música, moda, teatro, artesanato e dança. Outro ponto fundamental a ser conquistado é a valorização e o fomento da cultura afro-brasileira desenvolvida por artistas negros, em conexão com a diversidade e multiplicidade da cultura brasileira.

A Aldeia Kilombo Século 21 veio para incentivar o reconhecimento e valorização da cultura de raiz de matriz africana, convidando a população belorizontina a uma ampla reflexão sobre a importância deste bem imaterial do Brasil, apontando políticas públicas capazes de contribuir para que essa tradição se fortaleça na cidade. Na simplicidade e na vida diária, através da cultura e nas vivências do canto, da música dos atabaques, agogôs, berimbaus e caxixis, da poesia falada, dança e teatro, cada um dos mais de 600 participantes diretos (entre grupos e equipe) da Aldeia Kilombo Século 21 continuam sua caminhada, com a certeza de que a partir das questões apontadas será garantida a continuidade dessa rede. A frase antiga ressoa e agora se faz realidade: “quem canta sua aldeia, canta o mundo”!

Toda a equipe envolvida na realização do Aldeia agradece ao poder público, aos parceiros e movimentos sociais diversos e, em especial, aos agentes participantes que acreditaram e abraçaram a proposta, fazendo da Aldeia Kilombo Século 21 um espaço de trocas, saberes e uma rede de mobilização social, política e cultural.

A Aldeia continua!

Se você não faz parte das pessoas participantes da Aldeia ou participou e está com gostinho “de quero mais”, ainda está em tempo: neste sábado, dia 22, e domingo, 23, a Aldeia fecha o seu primeiro ciclo com chave de ouro na comunidade do Cascalho (Morro das Pedras). Endereço: Beco Marco Antônio, 250 – Campo do Cascalho / Gutierrez, próximo à Polícia Federal e à rua Benjamin Jacob. Ônibus: 2101 / 2150.

Confira a programação completa:

> SÁBADO – 22 DE JULHO
9h – Biblioteca Nossa Senhora Aparecida: Aldeia Medicinal – auriculuacupuntura, massagens, iridologia, instruções sobre alimentação e medicina alternativa com o grupo Bio. Lote Flor Do Cascalho: oficina de malabares. Igreja Assembléia de Deus: oficina para gestantes – ONG Bem Nascer, com Sílvia. Campo: oficina de percussão, com Fred do Tamborilar.
11h – Quarteirão do Soul
15h – Roda de Conversa: Cultura de Raiz e Inclusão Social – Mestre João Angoleiro (ACESA), Dona Luzia (matriarca do Quilombo dos Luises – Grajaú), Dimas Souza (cientista político), Fernanda Moreira (assistente social), Seu Tchan (morador antigo do Cascalho), Domingos do Cavaco (velha guarda do samba).
16h – Grande Roda de Capoeira Angola
18h – apresentações culturais: Tamborilata, Bloco Afro Querubins, Tamborilar, Companhia Primitiva, THC.

> DOMINGO – 23 DE JULHO
11h – atividade circenses e brincadeiras. Logo após, bateria da escola de samba Cidade Jardim e Domingos do Cavaco, Dona Elisa e Caminhos do Samba.
16h – Companhia Baobá de Arte Africana e Afro-brasileira
17h – Namastê (banda de percussão, canto e dança – Santa Luzia)
À noite: Hip Hop

Contato: aldeia21@yahoo.com.br | (31) 9751-6869 ou 9917-6762

 


VAI ROLAR

Lançamento da 4ª edição do jornal A Parada

No dia 27 de julho, quinta-feira, acontece o lançamento da quarta edição do Jornal Cultural A Parada, no campus I do CEFET-MG. O evento conta com diversas atividades durante todo o dia, a partir das 09:30h. A entrada é franca.

Fundado em 2004 por um grupo de estudantes do CEFET-MG, A Parada busca ser um canal aberto e consistente para divulgação e fomento da produção literária e artística. Os interessados em participar da publicação com textos ou imagens, em fazer parte da equipe organizadora ou em realizar alguma outra atividade ligada ao projeto, podem entrar em contato através do e-mail: a_parada2004@yahoo.com.br

Serviço - Lançamento da 4ª edição do jornal A Parada
Quando: 27 de julho, quinta-feira, a partir da 09:30h
Onde: campus I do CEFET-MG (Av. Amazonas, 5253 – Bairro Nova Suíça)
Entrada franca

 

VISITE NOSSO SITE: www.aic.org.br

Esta agência de notícias faz parte da Rede Jovem de Cidadania,
rede de comunicação comunitária integrada por jovens
de todas as regiões de Belo Horizonte.

Responsáveis por esta edição: Júnia Bertolino e Carem Abreu (redação – assessoria de comunicação da Aldeia Kilombo Século 21), Warley Bombi (design e editoração) e Rafaela Lima (coordenação e edição).

 

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